{"id":2354,"date":"2015-01-12T14:02:50","date_gmt":"2015-01-12T14:02:50","guid":{"rendered":"http:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/?p=2354"},"modified":"2015-01-12T14:02:50","modified_gmt":"2015-01-12T14:02:50","slug":"reeleicao-de-corruptos-e-o-paradoxo-do-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/?p=2354","title":{"rendered":"Reelei\u00e7\u00e3o de corruptos e o \u201cparadoxo do brasileiro\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Publicado por <a class=\"author\" href=\"http:\/\/professorlfg.jusbrasil.com.br\/\" data-profile-tooltip=\"4548721\">Luiz Fl\u00e1vio Gomes<\/a><\/p>\n<p>Por que os brasileiros abominam os pol\u00edticos corruptos e frequentemente os reelegem? Por que 250 mil paulistas reelegeram Paulo Maluf, mesmo depois de ele ter sido, na Su\u00ed\u00e7a, o protagonista involunt\u00e1rio (\u201cSr. Propina\u201d) de uma propaganda contra a corrup\u00e7\u00e3o mundial? Suely Campos (PP) se tornou governadora de Roraima porque seu marido (ex-governador Neudo Campos) foi barrado pela <a class=\"cite\" title=\"Lei Complementar n\u00ba 135, de 4 de junho de 2010\" href=\"http:\/\/www.jusbrasil.com.br\/legislacao\/823283\/lei-ficha-limpa-lei-complementar-135-10\" rel=\"23546514\">Lei da Ficha Limpa<\/a> (foi preso e declarado improbo judicialmente). Assumiu o cargo e nomeou 19 parentes para v\u00e1rios cargos p\u00fablicos. Juntos receber\u00e3o R$ 398 mil por m\u00eas. Nepotismo deslavado. Justificou-se dizendo \u201cser pr\u00e1tica comum na hist\u00f3ria de Roraima [na verdade, faz parte da hist\u00f3ria do Brasil]\u201d. Nota-se que ela est\u00e1 cumprindo o que prometeu na campanha: \u201cImplementarei pol\u00edticas para mulheres, para jovens, crian\u00e7as e tamb\u00e9m para a fam\u00edlia\u201d. Mais uma express\u00e3o do <i>sistema<\/i> hiperviciado brasileiro (veja Oliveiros S. Ferreira, <i>Teoria da Coisa Nossa<\/i>), que criou um Estado com um lado monstruoso caracterizado pela <i>plutocracia<\/i> (Estado governado ou influenciado por grandes riquezas), <i>cleptocracia<\/i> (Estado cogovernado por ladr\u00f5es) e<i>genocidiocracia<\/i> (Estado que pratica ou tolera a viola\u00e7\u00e3o massiva \u2013 e normalmente impune \u2013 dos direitos fundamentais, direta ou indiretamente voltada para o exterm\u00ednio de pessoas predominantemente pertencentes a etnias ou classes sociais desfavorecidas).<\/p>\n<p>O \u201cparadoxo do brasileiro\u201d \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00f3gica. N\u00e3o h\u00e1 brasileiro que n\u00e3o esteja indignado com \u201ctudo isso que est\u00e1 a\u00ed\u201d (corrup\u00e7\u00e3o, roubalheira nos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, financiamentos eleitorais indecentes, morosidade da Justi\u00e7a etc.). Os padr\u00f5es de conviv\u00eancia civilizada sempre est\u00e3o deteriorados. O moderno convive com o arcaico. Fabricamos avi\u00f5es e ainda contamos com 13 milh\u00f5es de analfabetos (e 3\/4 da popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o analfabetos funcionais). Os servi\u00e7os p\u00fablicos s\u00e3o indecentes. As humilha\u00e7\u00f5es, consequentemente, s\u00e3o constantes. O brasileiro anda descontente, angustiado, indignado e revoltado com a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, com a corrup\u00e7\u00e3o, com os pol\u00edticos desonestos, com as falsas promessas, com o nepotismo, fisiologismo (troca de favores e benef\u00edcios) e tantas outras coisas. Todos com quem conversamos querem mais \u00e9tica e mais justi\u00e7a, menos infla\u00e7\u00e3o, mais igualdade, mais efici\u00eancia no servi\u00e7o p\u00fablico; mais ordem, mais seguran\u00e7a, mais hospitais, mais m\u00e9dicos. Cada um de n\u00f3s protesta, reclama, amaldi\u00e7oa, abomina, critica.<\/p>\n<p><i>Individualmente<\/i> n\u00e3o concordamos com \u201cnada do que est\u00e1 a\u00ed\u201d. Temos a cren\u00e7a e o sentimento de que somos pessoalmente muito melhor do que essa bandalheira que grassa pelo pa\u00eds afora. Ningu\u00e9m aceita, ningu\u00e9m est\u00e1 de acordo com o mar de lama, o deboche e a vergonha da vida p\u00fablica e comunit\u00e1ria que nos aflige. <i>Coletivamente<\/i>, no entanto, o resultado final de todos n\u00f3s juntos \u00e9 tudo isso que est\u00e1 a\u00ed (esse \u00e9 o \u201cparadoxo do brasileiro\u201d, desenvolvido por Eduardo Giannetti, <i>V\u00edcios privados, benef\u00edcios p\u00fablicos?<\/i>: 12 e ss.). Pessoalmente (e no plano dos discursos: orais ou nas redes sociais) somos (e vendemos) a imagem do que gostar\u00edamos de ser (honestos, probos, \u00edntegros, avan\u00e7ados, progressistas, amistosos, cordiais etc.). Discursamos sempre de acordo com essa imagem. Coletivamente n\u00e3o somos nada (ou somos muito pouco) dessa imagem que gostar\u00edamos de ser. \u00c9 por isso que o todo \u00e9 muito menos que a soma das partes. Se o produto final (n\u00f3s como um todo) \u00e9 horroroso, indecente, indolente, mal-afamado (a classe pol\u00edtica nada mais \u00e9 que uma s\u00edntese ou espelho da sociedade que temos), como isso pode acontecer, se nos nossos discursos somos \u00e9ticos, exemplares, leais, cordiais e probos? Por que discursamos como suecos civilizados e nossa sociedade como um todo \u00e9, em termos civilizat\u00f3rios, t\u00e3o indecente, t\u00e3o aberrante, t\u00e3o <i>brasileira<\/i>? Por que discursamos como os melhores motoristas do mundo e o resultado final s\u00e3o 45 mil mortos por ano no tr\u00e2nsito, milhares de aleijados, mais de meio de milh\u00e3o de feridos? Por que bradamos por honestidade e reelegemos Maluf, Renan, Sarney e tantos outros pol\u00edticos declaradamente desonestos?<\/p>\n<p>Eduardo Giannetti (citado) explica: \u201cA auto-imagem de cada uma das partes \u2013 a ideia que cada brasileiro gosta de nutrir de si mesmo \u2013 n\u00e3o bate com a realidade do todo melanc\u00f3lico e exasperador chamado Brasil. Aos seus pr\u00f3prios olhos, cada indiv\u00edduo \u00e9 bom, progressista, e at\u00e9 gostaria de poder \u2018dar um jeito\u2019 no pa\u00eds. Mas enquanto clamamos pela justi\u00e7a e efici\u00eancias, enquanto sonhamos, cada um em sua ilha, com um lugar no Primeiro Mundo, vamos trope\u00e7ando coletivamente, como son\u00e2mbulos embriagados, rumo ao Haiti. Do jeito que a coisa vai, em breve a sociedade brasileira estar\u00e1 reduzida a apenas duas classes fundamentais: a dos que n\u00e3o comem e a dos que n\u00e3o dormem. O todo \u00e9 menor que a soma das partes. O brasileiro \u00e9 sempre o outro, n\u00e3o eu\u201d. Nisso reside uma amostra da psicologia moral brasileira. Que \u00e9 vol\u00favel. H\u00e1 momentos de ufanismo com o pa\u00eds (\u201caben\u00e7oado por Deus e bonito por natureza\u201d). Narcisismo inveterado. Fora dele, quanto mais a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds piora, mais cultivamos nossa auto-imagem (de impoluto, honesto a toda prova, probo, altaneiro). E quanto mais incrementamos nossa auto-imagem individual, mais o coletivo se afunda na bandalheira, na roubalheira. Mais reelegemos os pol\u00edticos reconhecidamente corruptos. Esse \u00e9 o \u201cparadoxo do brasileiro\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/imgs.jusbrasil.com\/publications\/artigos\/images\/1421064173.jpg\" alt=\"Reeleio de corruptos e o paradoxo do brasileiro\" width=\"\" height=\"\" data-zoom=\"1\" \/><\/p>\n<p><b>Saiba mais<\/b><\/p>\n<p>Veja o exemplo da escravid\u00e3o. Era deplorada por praticamente todos. Nos discursos todos diziam ser contra ela. At\u00e9 uma lei fizemos (para o \u201cingl\u00eas ver\u201d). Mas todos (fazendeiros e classe m\u00e9dia) tinham escravos. Por isso que s\u00f3 em 1888 a escravid\u00e3o foi abolida. N\u00f3s discursamos como gostar\u00edamos de ser (mas agimos de outra forma). Por isso de diz (Eduardo Giannetti) que a educa\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XXI \u00e9 o equivalente moral da escravid\u00e3o (todos discursamos em favor dela, mas nos comportamos para que ela continue indecente como est\u00e1). Diga-se a mesma coisa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o da renda, \u00e0 desigualdade, \u00e0 impunidade: todos discursamos contra, mas nos comportamos para que nada mude. Uma coisa \u00e9 o discurso, outra \u00e9 a realidade (que segue seu curso no contrafluxo de todos os nossos discursos). Os protestos passam, os padr\u00f5es de conduta ficam.<\/p>\n<p>De todas as na\u00e7\u00f5es do mundo, algumas s\u00e3o obtusas no discurso e s\u00e1bias na a\u00e7\u00e3o (veja Carlyle, citado por E. Giannetti). N\u00f3s somos o contr\u00e1rio. Uma alquimia perversa, \u201ctransforma a fina porcelana dos nossos discursos, promessas e exorta\u00e7\u00f5es no barro tosco das nossas a\u00e7\u00f5es desastradas e resultados med\u00edocres\u201d (Giannetti). Que seria isso? Hipocrisia? Nosso autor n\u00e3o concorda com essa tese. Afirma que \u201co desejo de pensar bem de si pr\u00f3prio \u2013 de se ter em boa conta \u2013 \u00e9 uma das mais poderosas for\u00e7as da psicologia humana. Ningu\u00e9m suporta conviver com uma imagem muito negativa de si mesmo por muito tempo. \u2018\u00c9 doce manter nossos pensamentos longe daquilo que fere\u2019, dizia S\u00f3focles\u201d (Giannetti). Nosso verdadeiro problema, concluir nosso autor, \u00e9 o auto-engano. \u201cA mentira mais frequente \u00e9 aquela que contamos para n\u00f3s mesmos \u2013 mentir para os outros \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o\u201d (Nietzsche).<\/p>\n<p>Quem critica os outros, quem censura, quem reprova, quem legisla e quem julga os outros vive um estranho autismo voltado aos seus valores e ao que acredita ser. Discursamos como f\u00f4ssemos o que gostar\u00edamos de ser. Esse auto-engano chega ao grau mais sofisticado de toda fantasia moral (e \u00e9tica) quando acreditamos naquilo que achamos que somos (de tanto repetir regras, c\u00f3digos, preconceitos, maledic\u00eancias, repugn\u00e2ncias, refuta\u00e7\u00f5es, verbera\u00e7\u00f5es, acabamos acreditando que somos o que enunciamos: honestos, impolutos, probos, irretoc\u00e1veis etc.). \u00c9 precisamente esse o fen\u00f4meno que se passa com os eleitores frente aos pol\u00edticos: repetem tanto que eles s\u00e3o desonestos, corruptos, improbos, que acabam acreditando que s\u00e3o o oposto deles. Na hora do voto, no entanto, reelegem os mesmos corruptos de sempre. Falamos de algu\u00e9m que desejamos ser (\u00e9ticos, impolutos, honestos) como se f\u00f4ssemos (Karnal).<\/p>\n<p>Quando as pessoas acreditam em alguma coisa, d\u00e3o vida para essa coisa, ainda que ela seja falsa e irracional. N\u00f3s todos (com pouqu\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es) adoramos legislar, normar, julgar, classificar, criar regras, criticar, censurar, reprovar, para nos sentirmos no lado do bem, dos \u201ccertos\u201d. Mas tudo isso est\u00e1 no plano dos discursos ou, no m\u00e1ximo, da cria\u00e7\u00e3o de uma norma \u201cpara os outros\u201d. Nossa a\u00e7\u00e3o, no entanto, nem sempre corresponde ao nosso discurso. A prova disso \u00e9 o quanto o brasileiro pragueja os pol\u00edticos corruptos e o quanto ele os reelege. Sabendo disso \u00e9 que os pol\u00edticos t\u00eam maior complac\u00eancia com as cr\u00edticas contra sua honorabilidade. Sabem da mal\u00edcia. Sabem que o cr\u00edtico que critica, em regra, \u00e9 quem ele gostaria de ser, n\u00e3o o que ele \u00e9. Sabem que o inquisidor (e o moralista) vende uma auto-imagem que n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade. Quem discursa, muitas vezes, \u00e9 a sombra (n\u00e3o a pessoa verdadeira). Tanto \u00e9 verdade que quando esse cr\u00edtico vai votar acaba reelegendo precisamente os pol\u00edticos que ele criticara. Quantos n\u00e3o criticaram Paulo Maluf e votaram nele? O pol\u00edtico experiente sabe de tudo isso. Ele despreza a sombra que fala, para cultuar o verdadeiro humano que est\u00e1 por detr\u00e1s de quem fala. Quem discursa \u00e9 o lado falso. Quem vota \u00e9 o lado verdadeiro. O falso \u00e9 cr\u00edtico, \u00e9 censurador. O verdadeiro \u00e9 o que reelege o corrupto. Basta entender que o humano \u00e9<i>homo sapiens, faber, oeconomicus, ludens, demens <\/i>e <i>loquax.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado por Luiz Fl\u00e1vio Gomes Por que os brasileiros abominam os pol\u00edticos corruptos e frequentemente&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2355,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-2354","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2354","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2354"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2354\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2356,"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2354\/revisions\/2356"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2355"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2354"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2354"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2354"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}