{"id":1337,"date":"2014-03-29T15:06:32","date_gmt":"2014-03-29T15:06:32","guid":{"rendered":"http:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/?p=1337"},"modified":"2014-03-29T15:06:32","modified_gmt":"2014-03-29T15:06:32","slug":"a-judicializacao-da-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/?p=1337","title":{"rendered":"A Judicializa\u00e7\u00e3o da Sa\u00fade"},"content":{"rendered":"<h2>Hoje s\u00e3o recorrentes as reclama\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o das recusas ou demora do Sistema \u00danico de Sa\u00fade &#8211; SUS no fornecimento de medicamentos, na realiza\u00e7\u00e3o de exames e procedimentos, al\u00e9m da aus\u00eancia de leitos dispon\u00edveis em hospitais da rede p\u00fablica e at\u00e9 mesmo privada<\/h2>\n<p>Por |\u00a0<a href=\"http:\/\/jornal.jurid.com.br\/pesquisa\/autor\/lorene-marchi-silva\">Lorene De Marchi e Silva<\/a><\/p>\n<div id=\"parteTexto_0\">\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica de 1998 assegura, no rol dos direitos sociais, o direito \u00e0 sa\u00fade, que subsume dentro da categoria do direito fundamental \u00e0 vida. Em seu artigo 196, a Carta Magna aduz que &#8220;a sa\u00fade \u00e9 direito de todos e dever do Estado, garantido mediante pol\u00edticas sociais e econ\u00f4micas que visem \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do risco de doen\u00e7a e de outros agravos e ao acesso universal e igualit\u00e1rio \u00e0s a\u00e7\u00f5es e servi\u00e7os para sua promo\u00e7\u00e3o, prote\u00e7\u00e3o e recupera\u00e7\u00e3o.&#8221;<br \/>\nNo entanto, hoje s\u00e3o recorrentes as reclama\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o das recusas ou demora do Sistema \u00danico de Sa\u00fade &#8211; SUS no fornecimento de medicamentos, na realiza\u00e7\u00e3o de exames e procedimentos, al\u00e9m da aus\u00eancia de leitos dispon\u00edveis em hospitais da rede p\u00fablica e at\u00e9 mesmo privada.<br \/>\nEm sua defesa, o Estado alega que a demanda \u00e0 sa\u00fade \u00e9 grande, enquanto a receita \u00e9 limitada. Na impossibilidade de atender a todas as necessidades da sociedade, o Estado tem de eleger prioridades para que possa implementar uma pol\u00edtica p\u00fablica eficaz, garantindo o m\u00ednimo existencial e ao mesmo tempo atuando de acordo com as diretrizes or\u00e7ament\u00e1rias.<br \/>\nO direito \u00e0 sa\u00fade demanda presta\u00e7\u00f5es positivas do Estado o que implica aloca\u00e7\u00e3o de recursos materiais e humanos para sua efetiva\u00e7\u00e3o. Se \u00e9 assim, o seu atendimento est\u00e1 submetido a uma reserva do poss\u00edvel que \u00e9 o princ\u00edpio segundo o qual o cumprimento de decis\u00f5es que impliquem gastos p\u00fablicos fica a depender da exist\u00eancia de meios materiais dispon\u00edveis para sua implementa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPor outro lado a sociedade alega o descumprimento da garantia do m\u00ednimo existencial na \u00e1rea da sa\u00fade, que seria o menor padr\u00e3o indispens\u00e1vel para uma vida digna e de qualidade, ressaltando a inefic\u00e1cia do Estado na presta\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o. Diante desse cen\u00e1rio, a popula\u00e7\u00e3o busca uma tutela judicial imediata ao inv\u00e9s de enfrentar passivamente a burocracia administrativa, abarrotando o Poder Judici\u00e1rio com pedidos de medicamentos, pr\u00f3teses ou interna\u00e7\u00f5es.<br \/>\nTem-se a\u00ed uma judicializa\u00e7\u00e3o da sa\u00fade.<br \/>\nEmbora a demanda da popula\u00e7\u00e3o, muitas vezes, seja leg\u00edtima, os cr\u00edticos alegam que o Poder Judici\u00e1rio n\u00e3o poderia obrigar o Estado a fornecer todo e qualquer tipo de medicamento, tratamento e cirurgia \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Haveria a necessidade de se exigir a comprova\u00e7\u00e3o, no caso concreto, das suas reais vantagens para efeito de deferimento de medidas judiciais.<br \/>\nAl\u00e9m disso, a escolha de medicamentos ou tratamentos para composi\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica p\u00fablica leva em conta uma pondera\u00e7\u00e3o de valores que deve, necessariamente, considerar sua efic\u00e1cia e confiabilidade, de um lado, e pre\u00e7o e acessibilidade a um maior n\u00famero poss\u00edvel de pacientes, do outro, sendo tal atribui\u00e7\u00e3o exclusiva do Poder Executivo.<br \/>\nNa mesma senda, os cr\u00edticos alegam que o ativismo judicial causa les\u00e3o \u00e0 ordem econ\u00f4mica e financeira do Estado, ao obrig\u00e1-lo a arcar com despesas n\u00e3o previstas em seu or\u00e7amento, sofrendo o Poder Executivo uma inger\u00eancia do Judici\u00e1rio.<br \/>\nDefendem, ainda, que a concess\u00e3o da tutela individual acarretaria em um dano coletivo, na medida em que a decis\u00e3o prejudicaria terceiros precedentes na fila de atendimento ou que se encontram em situa\u00e7\u00e3o mais emergencial ou gravosa.<br \/>\nPor fim, sustentam que, em virtude de se depararem com fatos que extrapolam o conhecimento jur\u00eddico, os magistrados n\u00e3o teriam informa\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas necess\u00e1rias para decidir sobre a necessidade ou efic\u00e1cia de alguns medicamentos ou procedimentos, al\u00e9m de, ainda, possu\u00edrem uma cultura de impossibilidade de negativa da tutela frente \u00e0 prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica.<br \/>\nOs magistrados, em contrapartida, est\u00e3o se mobilizando diante da complexidade do tema, tendo o Poder Judici\u00e1rio organizado f\u00f3runs e audi\u00eancias p\u00fablicas com especialistas da sa\u00fade p\u00fablica, para elucida\u00e7\u00e3o e esclarecimento de d\u00favidas recorrentes.<br \/>\nNa mesma senda, o Conselho Nacional de Justi\u00e7a &#8211; CNJ expediu a Recomenda\u00e7\u00e3o n\u00ba 31, em 30 de mar\u00e7o de 2010, para ado\u00e7\u00e3o de medidas para melhor subsidiar os magistrados e demais operadores do Direito, visando assegurar maior efici\u00eancia na solu\u00e7\u00e3o das demandas judiciais envolvendo a assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade.<br \/>\nAl\u00e9m disso, o ex-Deputado Federal Fl\u00e1vio Dino de Castro e Costa apresentou perante o Conselho Nacional de Justi\u00e7a pedido de provid\u00eancia para cria\u00e7\u00e3o de varas especializadas em Direito \u00e0 Sa\u00fade, com o intuito de possibilitar maior precis\u00e3o e celeridade na aprecia\u00e7\u00e3o dos atos que afetam o importante tema da sa\u00fade. Defendeu que a aludida especializa\u00e7\u00e3o da estrutura organizativa do Judici\u00e1rio possibilitaria o alinhamento de decis\u00f5es com f\u00f3runs de debate \u00e0 sa\u00fade, a forma\u00e7\u00e3o de c\u00e2mara t\u00e9cnica de apoio e uma maior capacita\u00e7\u00e3o dos magistrados para compreens\u00e3o do sistema de sa\u00fade brasileiro.<br \/>\nEm an\u00e1lise ao aludido pedido de provid\u00eancia, o Conselho Nacional de Justi\u00e7a expediu a Recomenda\u00e7\u00e3o n\u00b0 43\/2013 aos Tribunais de Justi\u00e7a e aos Tribunais Regionais Federais para que promovam a cria\u00e7\u00e3o de varas especializadas no julgamento de processos relacionados \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica e para que priorizem o julgamento de a\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 sa\u00fade suplementar.<br \/>\nOs que defendem a necessidade de o judici\u00e1rio decidir sobre a mat\u00e9ria em quest\u00e3o alegam que, ao ser verificado, no caso concreto, que o titular do direito \u00e0 sa\u00fade se encontra em situa\u00e7\u00e3o de uma imediata presta\u00e7\u00e3o do Estado, faz-necess\u00e1rio o deferimento de uma medida jurisdicional, sem que isso signifique uma inger\u00eancia entre os poderes. Na verdade, configura uma maximiza\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da dignidade da pessoa humana.<br \/>\nNesse sentido, \u00e9 o entendimento da hoje Ministra Carmem L\u00facia Antunes Rocha\u00a0 em seu artigo &#8220;O juiz na nova ordem estatal&#8221; (in Perspectivas do direito p\u00fablico: estudos em homenagem a Miguel Seabra Fagundes (coord) Belo Horizonte: Del Rey, 1995, p.256, apud, Por uma Teoria dos Princ\u00edpios: O princ\u00edpio Constitucional da Razoabilidade, OLIVEIRA, F\u00e1bio C\u00f4rrea Souza de. Rio de Janeiro: Lumem J\u00faris, 2003, p.291). Ela afirma\u00a0 que:<br \/>\n&#8220;o momento contempor\u00e2neo faz nascer o juiz-part\u00edcipe da sociedade; n\u00e3o o que lhe fica acima, n\u00e3o o seu espectador desinteressado e despreocupado (&#8230;) o juiz da sociedade p\u00f3s-moderna \u00e9 parte do processo sociopol\u00edtico e econ\u00f4mico da sociedade e, neste sentido, ele \u00e9 governo do Estado, comprometido com pol\u00edticas p\u00fablicas, n\u00e3o as de um determinado governante, mas aquelas estabelecidas como objetivos e princ\u00edpios constitucionais pelos quais ele se responsabiliza e se determina em sua conduta de prestador da Justi\u00e7a material.&#8221;<br \/>\nSem a presun\u00e7\u00e3o de esgotar tema t\u00e3o pol\u00eamico, verifica-se que o direito \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 vida de muitas pessoas est\u00e1 sendo assegurado, atualmente, pelo Poder Judici\u00e1rio, o que, longe de ser o ideal, parece ser um caminho sem volta frente \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas vigentes e a escassez de recursos na \u00e1rea de sa\u00fade. E, o pior, outras milhares de pessoas, que n\u00e3o ser\u00e3o beneficiadas pela tutela jurisdicional, ficar\u00e3o sem atendimento adequado na rede p\u00fablica de sa\u00fade. Com efeito, a judicializa\u00e7\u00e3o atende ao interesse individual, mas n\u00e3o soluciona a demanda coletiva pelo direito \u00e0 sa\u00fade no Brasil.<br \/>\n<strong>Autora<\/strong><br \/>\n<strong>Lorene De Marchi e Silva<\/strong>\u00a0\u00e9 Analista do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado de Minas Gerais<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje s\u00e3o recorrentes as reclama\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o das recusas ou demora do Sistema \u00danico de&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-1337","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1337","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1337"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1337\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1338,"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1337\/revisions\/1338"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1337"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1337"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gerolimich.adv.br\/adv\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1337"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}